Sua Saúde

Diabetes não é bicho de sete cabeças

Adolescentes que são diagnosticados com a doença podem curtir a vida numa boa, desde que tenham disciplina na alimentação e na insulina.

Aos 24 anos, o músico Guilherme Salgueiro aproveita ao máximo cada momento da juventude. Toca em um grupo de samba, dá aulas de Língua Portuguesa, sai com os amigos, reserva um tempo para bater uma bolinha e cultiva religiosamente a paixão pela Unidos de Vila Isabel nos ensaios da bateria da escola de samba. Descobriu que era diabético aos 4 anos de idade, mas só aos 8 começou a utilizar insulina. Entretanto, para ele, a doença nunca foi um bicho de sete cabeças. "Nunca tive vergonha de dizer que sou diabético, mas também nunca utilizei a doença para ganhar vantagem em relação a outras pessoas, até porque é possível ter uma vida normal se a glicemia for mantida sob controle. Para mim, a insulina é um remédio para nós, diabéticos, assim como a bombinha o é para os asmáticos", afirma.

Ele conta que, na maior parte das vezes, não se incomodou com a diabete propriamente dita, mas com as pessoas que demonstram desconhecê-la ou a encaram como uma doença terminal. Dentro de casa, por exemplo, até hoje, é tratado de forma diferente pelos avós, com quem vive. "Em certos momentos, meu avô diz: 'menino, coloca a camisa por conta do vento, você tem uma doença séria'. Já ouvi até gente perguntando se passa pela saliva. Hoje, este tipo de coisa é até menos comum porque o assunto tem sido abordado com mais freqüência nas escolas", comenta. A única restrição que ainda incomoda o jovem é ter de evitar o consumo de doces. "Sou viciado neles. Em quindim e chocolate, nem se fala. Mas procuro consumir de forma moderada, sempre de olho na glicemia, controlando a quantidade de carboidratos", diz.

Por que logo eu?

De acordo com Adolpho Milech, professor e chefe do Setor de Endocrinologia do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho da UFRJ, adolescentes com diabete tipo 1, como Guilherme, têm condições de curtir a juventude com bastante qualidade de vida, desde que procurem auxílio de um especialista. Ele conta que a diabetes mellitus (ou diabete melito) 1 atinge cerca de 7 a cada 100 mil pessoas no País e representa 5 a 10% dos casos de diabete. "Diferentemente do tipo 2, relacionada à obesidade, ela é uma doença auto-imune, causada por uma falha do próprio sistema imunológico, que passa a atuar contra as células do corpo que produzem insulina", explica.

Geralmente, a diabete tipo 1 se manifesta de forma aguda e repentina logo depois de um resfriado, gripe ou qualquer patologia corriqueira, diz Adolpho Milech. A partir daí, o indivíduo começa a beber muita água, urinar mais que o normal, queixar-se de cansaço e perder peso.

De acordo com o médico, a primeira reação do paciente e dos pais ao saberem do diagnóstico é negar a doença. "Há uma resistência mesmo em pessoas bem informadas, porque ninguém quer ficar doente. Depois vem a fase da consternação, especialmente porque a adolescência é relacionada a um certo narcisismo, à valorização do corpo. Em seguida, com uma boa abordagem familiar e do médico, o choque acaba sendo superado e o tratamento transcorre com tranqüilidade, na maioria dos casos", diz.

Diet não é light

O primeiro passo para controlar a doença, conta o médico, é fazer com que o paciente conheça a diabete e faça algum esporte para facilitar a absorção dos carboidratos. Outro ponto importante é aprender a monitorar os níveis de glicose com medidores de glicemia e saber como usar a insulina. "Quanto melhor for o controle, menores serão as chances de ele ter complicações decorrentes da doença, principalmente nos olhos, rins e nervos", ressalta.

Adolpho Milech também alerta que o tabu "todo diabético não pode comer carboidrato" não corresponde à realidade. De acordo com o endocrinologista, é possível comer de tudo desde que se faça uma dieta "sadia e não proibitiva" sob a orientação de um especialista. "A recomendação é que ele evite alimentos muito gordurosos e com açúcar e coma carboidratos elaborados (arroz, feijão, batata, inhame, etc) em quantidades determinadas", diz. Doces também podem ser consumidos, mas só em ocasiões especiais. "Neste dia, o paciente tem que monitorar a glicemia, calcular quanto de açúcar tem naquele pedaço e tomar uma dose maior de insulina de rápida ação. Porém, é aconselhável que ele faça isso apenas eventualmente", alerta.

No entanto, nem sempre é fácil seguir à risca a dieta prescrita. Segundo Guilherme Salgueiro, força de vontade não basta. É também necessário que os produtos dietéticos (sem açúcar) - diets - e que são diferente dos lights, com poucas calorias - sejam ainda mais acessíveis aos diabéticos. "Antigamente, era ainda mais difícil de encontrá-los, mas esta onda de emagrecimento fez com que se tornassem mais acessíveis. No entanto, nem sempre é fácil identificar na embalagem se realmente não contêm açúcar. Além disso, são vendidos em pouca quantidade e chegam a custar até cinco vezes mais que o produto normal", critica o jovem.

Leia mais sobre diabetes em:

http://www.diabetes.org.br/

http://www.sbd.org.br/